março 01, 2009

fala o romancista



"Uma coisa que custa trabalho a entender é que o arquiduque maximiliano tenha decidido fazer a viagem de regresso nesta época do ano, mas a história assim o deixou registado como facto incontroverso e documentado, avalizado pelos historiadores e confirmado pelo romancista, a quem haverá que perdoar certas liberdades em nome, não só do seu direito a inventar, mas também da necessidade de preencher os vazios para que não viesse a perder-se de todo a sagrada coerência do relato. No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade. Em verdade vos direi, em verdade vos digo que vale mais ser romancista, ficcionista, mentiroso."

fevereiro 25, 2009

qué qui tu tem

Mas porque alegria não é só carnaval, trago essa outra, essa alegria imensa que é ouvir Xangai cantando "Qué qui tu tem, canário"!



Canarinho da terra
Canarinho do rio
Canarinho da Bahia

Qué qui tu tem canário
Que quando canta arrepia

Sabiá da mata
Sabiá congá
Sabiá da praia

Qué que tu tem na asa
Quando disser não caia

Meu curió do brejo
Meu sofrer sem dor
E minha lavandeira
Qué que tu tem jandaia
Que avoa tão ligeira

Gavião peneira
Gavião penacho
Pato da lagoa
Qué que tu vê na água
que tanto ti magoa

Minha zabelê
Minhas andorinhas
Oh meu canarinho
Qué que tu tem bichinho
Que cisca miudinho
Que canta curridinho
Que avoa tão baixinho
Que não voltou pro ninho
Qué qui tu tem canário...

(música de Xangai)

fevereiro 24, 2009

alegria

Fazia falta um pouco de alegria nesse blog meio abandonado.
As fotos foram tiradas por Bebel Franco, no Rio, e estão no seu blog em bebelfranco.multiply.com.








fevereiro 14, 2009

Tisana 118



Estou na praia. É um dia excepcionalmente quente. De repente um golpe de vento arranca-me o chapéu de palha erguendo-o tão alto que parecia um papagaio lançado de cima dum monte. Corro pela areia tentando apanhá-lo mas ele vai velocíssimo. Continuo a correr. A areia queima-me os pés saltam-me lágrimas dos olhos. Não posso correr mais. Não consigo continuar nem regressar. Sinto-me desesperada. Caio no chão. Vou ficar aqui morrer queimada. Depois claro o chapéu poisou simplesmente ao meu lado.

Ana Hatherly - "463 tisanas" - Ed. Quimera

fevereiro 05, 2009

os bois e as coisas


Hoje senti uma estranha e inesperada leveza quando resolvi dizer o que sentia e usar as palavras para dar nome aos bois. E foi para o último ser a quem eu pensava um dia poder dizê-las. O próximo capítulo não deve aparentar, presumo, uma grande mudança de rumo. Mas agora sob essa aparência jaz aquilo que antes de hoje era intocável.
Nos últimos tempos tenho me surpreendido muito com as coisas.

janeiro 31, 2009

Love is a better word



Lisboa.
Hoje C. insistia que eu ficasse aqui de vez; que desfizesse os laços cariocas e me aportuguesasse; ao que eu respondi jamais - com exclamação.
Ele não entende e eu não soube e não sei explicar que gosto é desse lusco-fusco, desse estar entre, de não me decidir por um ou outro lado da margem; gosto de ter os pés aqui e o meu coração pousado lá, ou o contrário; gosto dessa dorzinha, desse desassossego, dessa coisa incompleta por completar-se, dessa interrogação.
Vá lá alguém como C. entender essas coisas.

janeiro 27, 2009

saudade do Brasil



Hoje vou começar a ler "Conversa de burros, banhos de mar e outras crónicas exemplares", da Cotovia.
Pelos cronistas, mas principalmente porque tenho uma saudade danada da minha terra; porque sei que vou me sentir em casa ao reler Drummond, Rubem Braga, Fernando Sabino, Lima Barreto e uns tantos outros.
Porque daqui nem posso ver a constelação do Cruzeiro do Sul.
Porque não quero esquecer o Brasil; nem quero que o Brasil me esqueça.