dezembro 24, 2008

mensagem de natal para uma amiga



Querida S., eu não ia deixar de falar contigo, ocupada ou não, imagina!
Sim, tenho andado ocupada, não só com trabalho, mas também preparando a casa para receber a minha amiga K. que chega na sexta- feira de manhã e fica uns vinte dias comigo. Fui comprar um armariozinho, na verdade um complemento, com pratelerias, pra pôr as suéteres e outras coisas de inverno, e deixar livre pra ela um meio-armário, mesmo assim com bastante espaço.
Além disso... andei uns dias bem deprimida. Essa época do ano pra mim é fatal. Tomei até umas 'bolinhas' pra me ajudar a sair da crise. Agora estou melhor.
Não é tanto por estar longe fisicamente da família - é curioso, isso - mas sim por ter um profundo sentimento de perda: dos dias bons da juventude (no sentido das expectativas e esperanças em relação ao futuro) - minha e da minha família -, dos meus avós vivos, da casa da minha avó, das ceias de natal que ela fazia... esse tipo de coisa, entende? Perda de um tempo que não volta mais e do tanto que cabia na nossa alma então e que agora já não cabe... E não consigo controlar isso, que se soma à preocupação constante com meus pais idosos.
Bem, apesar de tudo me sinto melhor hoje, e justamente agora estou preparando o meu almoço bem brasileiro, a minha 'comidinha' - ou seja, nada do outro mundo: arroz (o meu é bom!), feijão preto, carne moída bem temperada, brócolis e mais uns legumes. A sobremesa será abacaxi. Que tal?

S., eu não consigo resumir aqui tudo que já tenho dito a você: da minha admiração pela sua força de espírito, pelo seu talento e bom-humor que despontam em meio a todo o resto - isso é que é uma maravilha!
Os nossos nomes continuam aos pés do santo, e se 'algo' existe, que 'ele' então conspire a seu favor, a favor de nós todos. O sucesso dos teus livros, uma casa nova que te aconchegue, trabalho e sobretudo dinheiro, e muita saúde, de corpo e de espírito, é que o desejo pra você nesse virar de ano.

Um beijo muito carinhoso e um abraço apertado.
A.

dezembro 22, 2008

poeminha de amor

Tenho nas mãos a pena e o papel
mas tudo é tão pouco...
e eu não encontro a palavra que fala do
indizível sentimento.
Asas, pra quê te quero? meu vôo é outro:
quero é teu colo morno
e mesmo que apenas
cinco minutos de esplendor ao teu lado.


Rio, 01/11/1990

dezembro 21, 2008

varal




Querem me ver feliz? É, por exemplo, eu ter de estender a roupa no varal. Desde tirá-la da máquina, com aquele cheiro de lavado, depois pô-la na bacia, mais os pregadores, e levar lá pra cima, pro terraço coberto, pro varal coletivo, o varal mais bem situado que conheço - com vista pro Atlântico e pra toda a vila. Um deslumbre a qualquer hora do dia ou da noite. Há sempre que fazer uma pequena pausa e olhar, olhar.
Às vezes é preciso disputar lugar nas cordas: uns trinta metros quadrados pra roupa de cinco apartamentos não é muito.
Hoje em particular foi tão bom, depois de dias e dias de chuva, em que a gente tinha de lavar a roupa pra não acumular; e depois a roupa não secava por causa da intensa humidade, e ficava com aqule cheiro de cachorro molhado …
Mas hoje o sol saiu. Não intenso, porque é sol de inverno, mas bom, e morno o suficiente para, com a ajuda da brisa, secar e deixar frescas as nossas roupas, as meias, as fronhas e os lençóis, as mantas, os tapetinhos do banheiro, e até como novos os belos tênis do vizinho.



diário 1

Lisboa. Sábado. Dia ensolarado, céu muito azul. Está menos frio agora, embora ontem e anteontem eu tenha quase congelado: 7º, 8º 9º graus, com vento, o que aumenta muito a sensação de frio. Por sorte é um frio seco, que faz bem e dá boa diposição: apetece caminhar, e mesmo alguns quilômetros não cansam.
Leio (não vi o filme) "A Morte em Veneza", editado pela Relógio D'Água, Junho de 2004. Lá à minha maneira, vou viajando pelos livros, caótica, lendo dois ou três simultânea e lentamente. Leio este sobretudo porque li "Cartas de Veneza", do Robert Dessaix, e um me levou ao outro. Acho que, pela primeira vez - e talvez só agora o tenha percebido - tenho a sensação de "precisar de um autor". Nunca senti isso antes, sempre fui dispersa. Mas agora dei pra 'precisar de ler coisas que alguém sente-pensa-escreve de um modo em particular'. É claro que em breve vou reler "Cartas de Veneza". Como quero ler-reler outros livros dele, e de outros. Bom, todo esse blá-blá-blá pra dizer que estou me deliciando com "A Morte em Veneza", cuja leitura, por sua vez, vai me estimulando em tantas e tantas outras direcções, sobre as quais talvez eu venha a falar aqui.
Pra finalizar, por hoje, deixo uma pequena parte do que li, que fala de Veneza, mas não só de Veneza: "Era o trajecto que tão bem conhecia, pela lagoa, passando por San Marco, grande canal acima. Aschenbach estava sentado no banco circular da proa, o braço apoiado na amurada, a mão cobrindo os olhos. Os jardins públicos ficaram para trás, a piazzetta mostrou-se uma vez mais com graça principesca e para trás ficou, seguiu-se a linha de fuga dos palacetes, e quando a estrada de água desenhou a curva do canal, surgiu o magnífico arco de mármore do Rialto. O viajante olhava, peito rasgado. A atmosfera da cidade, este vago cheiro infecto de mar e pântano, que o impelira a fugir tão precipitadamente - respirava-o agora profundamente, suavemente, dolorosamente. Seria possível que não soubesse, que houvesse esquecido, o quanto o seu coração dependia de tudo isto?"

Lisboa, 19/2/05

lembranças de Timbaúba


Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha na alma.


A educação pela pedra, de João Cabral de Melo Neto

imagem: desenho de Candido Portinari

Timbaúba fica no interior de Pernambuco, perto do Recife.

Recomeçar


Hoje finalmente montei o roupeiro que comprei ainda na semana passada. É simples, mas deu um jeito e tanto no quarto de vestir. As araras não aguentavam mais, e o roupeiro improvisado que eu tinha já quase não se mantinha de pé. Depois de tudo arrumado, olhei à volta e senti uma profunda satisfação, uma coisa tão boa; recordei as várias etapas da minha vinda pra cá, os primeiros tempos difíceis, a insegurança; as filas de madrugada em frente ao serviço de estrangeiros que, de tempos em tempos, tenho de enfrentar; a cave onde vivi, na Amadora, a experiência de dividir um ap - que não deu certo -, e agora esta casa que aos poucos vou arranjando. Como tem sido bom recomeçar!

Lisboa, 22/4/05

Portugal é pequeno, mas é grande


(1)
Hoje eu estava no ônibus de volta pra casa e havia ali mais brasileiros do que portugueses. Isso é comum. Há brasileiros em toda parte. Assim como ucranianos, angolanos... Mas brasileiros há aos montes: mineiros (muitos), goianos, paranaenses, paulistas (do interior principalmente), baianos, cariocas (poucos!), etc. Na rua você vai pedir uma simples informação, e há uma grande chance de ouvir um "brazuca" a falar. O mesmo nas lojas, nas lanchonetes, nas obras. Hoje andei pelo parque Eduardo VII para ver a finalização da montagem dos pavilhões da Feira do Livro. Havia vários rapazes a pintar paredes, martelar, aparar madeiras. Falavam entre si. Brasileiros. Será que estou mesmo no hemisfério norte?


(2)
Ontem, saindo do trabalho, já no ponto de ônibus, me deliciava enquanto ouvia um trabalhador das obras - brasileiro, naturalmente - conversando pelo celular com o 'Seu Manel'. É claro que eu só ouvia o lado de cá do diálogo, mas não pude deixar de sorrir inúmeras vezes. Sabem aquela conversa típica, aquele jeito de falar bem malandreco, pra deixar o 'Seu Manel' tranquilo em relação à tarefa que seria cumprida? Pois é! Pena eu não poder reproduzir. Essas cenas também me deixam saudosa.

Lisboa, 28/5/05

Férias - agosto 2005


Agosto aqui no hemisfério norte é mesmo um mês terrível para viajar, por causa do turismo de massa - é claro, depende também um pouco do rumo que se toma. Mas às vezes não há alternativa: quando viajamos em grupo, é comum termos que ceder à maioria. Tenho a família em casa e saímos aí por uns dez dias entre Portugal, Espanha e França. Era a única altura possível pra eles, mas sobretudo pra mim, por causa do trabalho. Enfim, lá fomos nós; e, felizmente, de trem - o que foi um dos pontos altos da viagem, mesmo que um pouco cansativo. Observei mais uma vez como é diferente e especial a sensação de viajar por terra, comparando-se à viagem pelo ar. Por terra estabelecemos pontes entres os lugares, entre cidades, mares, montanhas, rios, campos; tem-se mais a sensação física de atravessar o espaço, saboreando-o, descobrindo e relacionando factos, histórias, imagens: Portbou, Cerbère, Port-Vendrès, o Mediterrâneo - de uma lado; St. Jean-de-Luz, Hendaye, Irún, o Cantábrico - do outro; os Pirineus. A jangada de pedra. Mas em Barcelona não se conseguia caminhar pelas ramblas: um mar de gente a consumir tudo que encontrava. Refugiámo-nos no bairro gótico, menos assediado. Um calor de doidos. Só conseguimos aproveitar porque o espírito era bom e o olhar atento. Na França foi menos mau. Houve até a oportunidade de ver e ouvir a chuva forte, com trovoadas, que há muito, muito tempo não temos em Portugal. Chegámos mesmo a vestir uns casaquinhos leves! Vimos boas exposições e provámos boa comida. Falar com as pessoas também foi bom, apesar da dificuldade com as línguas que não dominamos. Agora estamos de volta: bom chegar a casa. Sentimo-nos de novo aconchegados. E essa é uma boa sensação.

brisa - Manuel Bandeira


Vamos viver no Nordeste, Anarina.

Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.

Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.

No Nordeste faz calor também.

Mas lá tem brisa:

vamos viver de brisa, Anarina.


Imagem: quadro de Beatriz Milhazes

o ombro ligado - Konstandinos Kavafis


Disse que bateu numa parede ou que caiu.
Mas provavelmente seria outra a causa
do ombro ferido e ligado.

Com um movimento um tanto brusco,
para tirar de uma estante algumas
fotografias que queria ver de perto,
desatou-se a ligadura e correu um pouco de sangue.

Voltei a ligar o ombro, e ao ligar
demorava um pouco; porque não lhe doía
e eu gostava de ver sangue. Coisa
do meu amor aquele sangue era.

Quando se foi embora encontrei aos pés da cadeira
um farrapo ensanguentado, dos panos,
farrapo que parecia para o lixo directamente
e que nos meus lábios pus,
e que conservei muito tempo -
o sangue do amor sobre os meus lábios.



imagem: foto de José Manuel Reis