janeiro 27, 2009

saudade do Brasil



Hoje vou começar a ler "Conversa de burros, banhos de mar e outras crónicas exemplares", da Cotovia.
Pelos cronistas, mas principalmente porque tenho uma saudade danada da minha terra; porque sei que vou me sentir em casa ao reler Drummond, Rubem Braga, Fernando Sabino, Lima Barreto e uns tantos outros.
Porque daqui nem posso ver a constelação do Cruzeiro do Sul.
Porque não quero esquecer o Brasil; nem quero que o Brasil me esqueça.

janeiro 24, 2009

quero ver pela primeira vez

Há pouco eu dizia a S.: a espera comanda os meus dias. E amanhã é ainda mais incerto do que já foi - o que por um lado prefiro, porque prefiro aquela árvore das possibilidades que li no livro do Kundera. Não fosse assim, sufocaria.
Os prazos que defino vão ficando ainda mais curtos, e eu, sempre lenta, sinto que vou no começo enquanto olho à volta e parece que o sentido é outro, e que o começo já foi há muito.
Será que alguém me ensina a não pensar no tempo que encerra um dia? a não me apegar tanto ao fluir da semana e de todo o resto?
Ah, tão bom se me bastasse gozar a existência como outro dia vi alguém fazer: olhar pro já visto e ver pela primeira vez. Fiquei tão comovida que a princípio nem percebi.

janeiro 01, 2009

primeiro dia


Já vamos entrando no meio da tarde do primeiro dia. 2009.
Minha amiga dorme; recobra das últimas horas agitadas.
Arrumei a cozinha, tratei da roupa, e agora é silêncio. Sagrado silêncio. Volto ao trabalho que preciso entregar na segunda. A chuva ameaça ainda.
Mas hoje nada me abala, reconfortada com a companhia e proximidade desta amizade antiga.
E porque sinto o ânimo sereno para enfrentar o tempo novo, que não sei o que trará.

dezembro 24, 2008

mensagem de natal para uma amiga



Querida S., eu não ia deixar de falar contigo, ocupada ou não, imagina!
Sim, tenho andado ocupada, não só com trabalho, mas também preparando a casa para receber a minha amiga K. que chega na sexta- feira de manhã e fica uns vinte dias comigo. Fui comprar um armariozinho, na verdade um complemento, com pratelerias, pra pôr as suéteres e outras coisas de inverno, e deixar livre pra ela um meio-armário, mesmo assim com bastante espaço.
Além disso... andei uns dias bem deprimida. Essa época do ano pra mim é fatal. Tomei até umas 'bolinhas' pra me ajudar a sair da crise. Agora estou melhor.
Não é tanto por estar longe fisicamente da família - é curioso, isso - mas sim por ter um profundo sentimento de perda: dos dias bons da juventude (no sentido das expectativas e esperanças em relação ao futuro) - minha e da minha família -, dos meus avós vivos, da casa da minha avó, das ceias de natal que ela fazia... esse tipo de coisa, entende? Perda de um tempo que não volta mais e do tanto que cabia na nossa alma então e que agora já não cabe... E não consigo controlar isso, que se soma à preocupação constante com meus pais idosos.
Bem, apesar de tudo me sinto melhor hoje, e justamente agora estou preparando o meu almoço bem brasileiro, a minha 'comidinha' - ou seja, nada do outro mundo: arroz (o meu é bom!), feijão preto, carne moída bem temperada, brócolis e mais uns legumes. A sobremesa será abacaxi. Que tal?

S., eu não consigo resumir aqui tudo que já tenho dito a você: da minha admiração pela sua força de espírito, pelo seu talento e bom-humor que despontam em meio a todo o resto - isso é que é uma maravilha!
Os nossos nomes continuam aos pés do santo, e se 'algo' existe, que 'ele' então conspire a seu favor, a favor de nós todos. O sucesso dos teus livros, uma casa nova que te aconchegue, trabalho e sobretudo dinheiro, e muita saúde, de corpo e de espírito, é que o desejo pra você nesse virar de ano.

Um beijo muito carinhoso e um abraço apertado.
A.

dezembro 22, 2008

poeminha de amor

Tenho nas mãos a pena e o papel
mas tudo é tão pouco...
e eu não encontro a palavra que fala do
indizível sentimento.
Asas, pra quê te quero? meu vôo é outro:
quero é teu colo morno
e mesmo que apenas
cinco minutos de esplendor ao teu lado.


Rio, 01/11/1990

dezembro 21, 2008

varal




Querem me ver feliz? É, por exemplo, eu ter de estender a roupa no varal. Desde tirá-la da máquina, com aquele cheiro de lavado, depois pô-la na bacia, mais os pregadores, e levar lá pra cima, pro terraço coberto, pro varal coletivo, o varal mais bem situado que conheço - com vista pro Atlântico e pra toda a vila. Um deslumbre a qualquer hora do dia ou da noite. Há sempre que fazer uma pequena pausa e olhar, olhar.
Às vezes é preciso disputar lugar nas cordas: uns trinta metros quadrados pra roupa de cinco apartamentos não é muito.
Hoje em particular foi tão bom, depois de dias e dias de chuva, em que a gente tinha de lavar a roupa pra não acumular; e depois a roupa não secava por causa da intensa humidade, e ficava com aqule cheiro de cachorro molhado …
Mas hoje o sol saiu. Não intenso, porque é sol de inverno, mas bom, e morno o suficiente para, com a ajuda da brisa, secar e deixar frescas as nossas roupas, as meias, as fronhas e os lençóis, as mantas, os tapetinhos do banheiro, e até como novos os belos tênis do vizinho.



diário 1

Lisboa. Sábado. Dia ensolarado, céu muito azul. Está menos frio agora, embora ontem e anteontem eu tenha quase congelado: 7º, 8º 9º graus, com vento, o que aumenta muito a sensação de frio. Por sorte é um frio seco, que faz bem e dá boa diposição: apetece caminhar, e mesmo alguns quilômetros não cansam.
Leio (não vi o filme) "A Morte em Veneza", editado pela Relógio D'Água, Junho de 2004. Lá à minha maneira, vou viajando pelos livros, caótica, lendo dois ou três simultânea e lentamente. Leio este sobretudo porque li "Cartas de Veneza", do Robert Dessaix, e um me levou ao outro. Acho que, pela primeira vez - e talvez só agora o tenha percebido - tenho a sensação de "precisar de um autor". Nunca senti isso antes, sempre fui dispersa. Mas agora dei pra 'precisar de ler coisas que alguém sente-pensa-escreve de um modo em particular'. É claro que em breve vou reler "Cartas de Veneza". Como quero ler-reler outros livros dele, e de outros. Bom, todo esse blá-blá-blá pra dizer que estou me deliciando com "A Morte em Veneza", cuja leitura, por sua vez, vai me estimulando em tantas e tantas outras direcções, sobre as quais talvez eu venha a falar aqui.
Pra finalizar, por hoje, deixo uma pequena parte do que li, que fala de Veneza, mas não só de Veneza: "Era o trajecto que tão bem conhecia, pela lagoa, passando por San Marco, grande canal acima. Aschenbach estava sentado no banco circular da proa, o braço apoiado na amurada, a mão cobrindo os olhos. Os jardins públicos ficaram para trás, a piazzetta mostrou-se uma vez mais com graça principesca e para trás ficou, seguiu-se a linha de fuga dos palacetes, e quando a estrada de água desenhou a curva do canal, surgiu o magnífico arco de mármore do Rialto. O viajante olhava, peito rasgado. A atmosfera da cidade, este vago cheiro infecto de mar e pântano, que o impelira a fugir tão precipitadamente - respirava-o agora profundamente, suavemente, dolorosamente. Seria possível que não soubesse, que houvesse esquecido, o quanto o seu coração dependia de tudo isto?"

Lisboa, 19/2/05