junho 10, 2011

cidade-floresta


"E podemos passar nisto uma vida, e nunca chegámos a sair da cidade."

Frase da jornalista-cronista-escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho – no momento vivendo no Rio de Janeiro –, depois de um dia a passear pela floresta da Tijuca, na mata Atlântica.
Eu sei bem do que ela está falando: sinto o cheiro, sinto a temperatura, ouço os sons.

Foto de ALC. Blog: Atlântico-Sul

"snack-bar Flor de Tília"


Não faz muito tempo fui a Benfica buscar um trabalho numa editora que acabou de se mudar pra lá, o que foi ótimo pra mim porque ficou muito mais à mão. Vindo de Cascais, tenho que pegar o trem e depois um ônibus - mesmo assim, facilitou a vida.

Mas o melhor de tudo foi poder voltar a Benfica. Não que seja um lugar especialmente aprazível, mas sim porque morei ali perto quando vim pra Portugal, e esse caminho que voltei a fazer é em parte o caminho que fazia quando cheguei aqui. Naquela época morava na Reboleira (não me perguntem que nome é esse porque eu não sei), que por ter sido o primeiro lugar onde vivi nesse país, ficou marcado pelos melhores motivos: eu estava onde queria estar.

Saindo então da editora, já com trabalho na mão, parei numa tasquinha muito simples, essa da foto, que fica bem em frente à estação do trem. Pedi café com leite quente e uma tosta mista. Então sentei na esplanada e fiquei olhando em volta, e me lembrando... Nisso o João me liga e então contei pra ele a história toda, e ele se riu muito porque eu estava feliz numa tasquinha de Benfica.

março 17, 2011

saídos dos quadros de Hooper

Na praça de alimentação do shopping. A biblioteca fecha às seis e vim pra cá pra terminar o trabalho que tenho de entregar amanhã de manhã sem falta. Acabo por escolher uma mesa que depois não me serve: a tarde cai e o candeeiro, justamente este aqui, está avariado, a luz intermitente que só percebi depois de já bem instalada: óculos, lapiseira, borracha, a bolsa na cadeira mais próxima, o saco do supermercado com compras - e as provas do livro. Transfiro tudo para outra mesa.
Faltam três páginas ou pouco mais. Olho à volta. O céu já praticamente escuro. Só a luz dos candeeiros, daqueles que ainda funcionam. Música de shopping, ruído apenas, mas que não incomoda porque o livro é ótimo e fico totalmente colada ao texto.
Última página. Acabou. É bom mas é pena, o livro é mesmo ótimo, ainda esticava um pouco mais o trabalho só por prazer de ler isto.
De novo, observo em volta. Poucas pessoas dispersas em cadeiras de cores pálidas. Cabeças baixas, olhar sem direção definida, ou então pregado na tv suspensa. Me faz pensar em Portugal, no porquê de eu ter vindo pra cá, e de estar aqui, hoje, a contar os tostões como quase toda a gente.
Já é noite. Só a luz dos candeeiros refletida nos rostos, mas são todos pálidos, como as cadeiras. Parece um quadro de Hooper. Todos saídos dos quadros de Hooper. Eu também.

janeiro 20, 2011

homenagem aos bichos da casa









Os dias passam. Mesmo que a gente não dê muito por eles, eles passam. E de repente já fui lá longe e já estou de volta. 30 dias, e foi tão rápido...
Mas e os bichos? Não terão certamente esse excesso de consciência dos dias: hoje é quanto, que mês, que horas, qual ano se foi, que tempo virá... e tanto mais os bichos não sabem.
Ou que será que os bichos sabem?
Não sei. (E eles não dizem.)

dezembro 29, 2010

na roça, em Goiás, à espera do novo ano

minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá
nosso céu tem mais estrelas
nossas várzeas têm mais flores
nossos bosques têm mais vida
nossa vida mais amores



novembro 22, 2010

paisagem restrita

Não tenho conseguido escrever nada. Sinto falta. Acho que, como dizem, "a fonte secou"... ou talvez tudo esteja a me passar ao largo, o que é grave; ou ainda pode ser que o panorama não seja inspirador e eu tenha me deixado apenas ficar entre as paredes brancas desse meu pequeno espaço, de onde só observo o sempre renovado varal da vizinha do terceiro andar. Em vez das ruas, das montanhas ao longe, ou do mar que se esconde atrás do prédio da frente, contemplo lençóis, fronhas, toalhas, aventais, as camisas que o marido traz na volta do ginásio, e mais uma infinidade de peças de tecido cheirando a um perfume floral que entra pela minha casa quando abro as portas ao ar da manhã e ao leve sol de Outono.
O trabalho é escasso. O trabalho, que me leva para além das fronteiras desta casa, desta rua, desta aldeia, o trabalho é escasso. Donde me deixo ficar a vislumbrar varais, enquanto há ruas lá fora, há montanhas ao longe, e há o mar atrás do prédio da frente.
No entanto sei que mês que vem ficarão para trás o varal, o prédio, a rua, a aldeia, e este mar pequeno como a minha janela.

Ricardo Reis me diz coisas e eu lembro de mim