abril 23, 2013

tantas palavras

Tantas palavras
Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
Tantas palavras
Que ela gostava
E repetia
Só por gostar

Não tinham tradução
Mas combinavam bem
Toda sessão ela virava uma atriz
Give me a kiss, darling
Play it again
Trocamos confissões, sons
No cinema, dublando as paixões
Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou
c'est fini
C'est fini
Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz

Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui






abril 18, 2013

A Maçã no Escuro

«O passarinho negro estava pousado num ramo abaixo, à altura de seus olhos. E impedido de voar pelo olhar abrutalhado do homem, mexia-se cada vez menos à vontade, tentando não encarar o que estava para lhe acontecer, alternando nervosamente o apoio do corpo numa ou noutra pata. Assim os dois ficaram se defrontando. Até que com a mão pesada e potente o homem pegou-o sem machucá-lo, com a bondade física que tem uma mão pesada.
O pássaro tremia todo na concha da mão sem ousar piar. O homem olhou com uma curiosidade grosseira e indiscreta a coisa na sua mão como se tivesse aprisionado um punhado de asas vivas. Aos poucos o pequeno corpo dominado deixou de tremer e os olhos miúdos se fecharam com uma doçura de fêmea. Agora, contra os dedos extremamente auditivos do homem, somente a batida diminuta e célere do coração indicou que a ave não morrera e que o aconhego a resignara enfim a descansar.
(...)
O homem olhou dócil o passarinho. Sem comando próprio, seus dedos agora inocentes e curiosos deixaram-se obedecer aos movimentos extremamente vivos da ave, e abriram-se inertes: o pássaro voou numa faísca de ouro como se o homem o tivesse lançado.(...) Quando o homem enfim ergueu os olhos, o passarinho perturbado o esperava como se só tivesse lutado porque pretendia ceder. Martim estendeu a mão ferida e pegou-o com firmeza sem esforço. Dessa vez a ave agitou-se menos e, reconhecendo o antigo abrigo, acomodou-se para adormecer. Com o leve peso a carregar, o homem continuou sua marcha entre pedras.»

(passagem do livro A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector)

fevereiro 23, 2013

Cantuária que gosto tanto de ouvir - para o Miguel Innersmile


ontem no Arpoador

Ontem era noite. Arpoador com Vic e Ricardo pra comer um bobó que valeu. Depois fomos molhar os pés no mar e aproveitei pra cumprimentar o Atlântico do lado de cá. 'Lá' ele é frio. Cá é morno. Por um supremo bom gosto do acaso, encontrámos Lili e Fábio. Gritámos todos, surpreendidos. Não sei explicar o que sentia ali com tudo aquilo e todos e aquele ar morno cheirando a maresia. Rimos muito. Lembranças remotas acordaram todas. Depois seguimos e atravessámos as ruas para uma breve esticada ali naquele bar. No caminho, restos, ainda, do carnaval. Ontem lavei pés e alma.

janeiro 20, 2013

Lisboa. Inverno de 1954.


(foto tirada de https://www.facebook.com/LISBOALive.PT)

pelo tempo chamado Outono

Pelo tempo chamado do Outono,
quando a beleza é mais oculta e calma
e na face das coisas pesa o sono
das águas do desejo, fecho a alma
e fico sem estrelas e sem nome.
Humilde, vou tecendo meu destino
futuro de palavras e de fome.
Nesse tempo do Outono meu latino
esplendor é uma cinza paciente.
Meu espírito, um lago verde. Quente,
porém, a gota que leveda ao fundo
do silêncio. Depois serei o Dia,
e com poemas e sangue e alegria
nascerei, incontido, sobre o mundo!...

 



in 'Poesia MCMLVIII' [Pastinhas da Queima das Fitas], org. Campos de Figueiredo, Coimbra, 1958.

dezembro 29, 2012

nunca mais

Tenho a nítida sensação de que chego sempre "atrasada" pras coisas, mas de alguma forma esse tempo é o meu tempo, e por isso deve estar certo. Hoje, por exemplo, li pela primeira vez "Banho de mar", uma crônica de Clarice Lispector, ela ainda criança indo aos banhos de mar em Olinda, com a família, onde assistiam ao nascer do sol. "Eu nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife."/"Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão? De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa."/"A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca."

novembro 01, 2012

marcos

Às vezes me vejo num mudo diálogo com certas coisas – aparentemente inanimadas tal como entendemos; mas sei que vida e ânimo são tudo o que elas encerram sem que no entanto o percebamos a não ser... por força de uma súbita ligação. Como se elas conectassem essa vida conosco somente quando um elo sentimental se estabelecesse. (Memória, nem sempre óbvia, ou do que nunca houve, mas de algum modo memória.)
Hoje vi duas fotos. De dois lugares. (Tenho afeto pelos lugares, mesmo aqueles que não foram meus). As fotos desses lugares mostravam uma praça e uma grande pedra. São uma praça e uma pedra das minhas memórias, marcos de momentos da minha vida, da vida de uma coletividade que é minha também. Eu as possuo e elas a mim. Somos eternamente umas das outras. Isso é muito engraçado e muito bom: tenho uma pedra; tenho uma praça. Brinco com elas e, de longe, nos dizemos "olha eu aqui!"


marco: pedra ou estaca que demarca terrenos ou distâncias; fronteira; pedra que assinala um acontecimento; o que serve de referência; aquilo que simboliza um lugar e/ou um acontecimento importante. [F.: Do germânico marka, pelo lat. medv. marcus. Hom./Par.: marco (sm.), marco (fl. de marcar).]

maio 20, 2012

brêtema




brêtema: mijona, "quando molha muito"; orvalhenta, "quando molha algo"; barrufa, "quando as partículas de água são imperceptíveis"; malina, "quando queima as meses, os frutos e as plantas sensíveis"